Bichado da fruta – Cydia pomonella L.

a) Morfologia:

O adulto do bichado distingue-se facilmente dos outros tortricídeos pela sua coloração e tamanho. Tem um tamanho de 15 a 22 mm, sendo geralmente mais pequeno o macho que a fêmea. Não existem diferenças de coloração entre ambos os sexos, embora se possa observar pequenas variações de tonalidade em alguns indivíduos. As asas anteriores são largas, quase retangulares, de coloração cinzento-azulado, mas sombreadas na base, com linhas finas de cor castanha. No seu extremo distal têm uma característica mancha, oval, transversal e escura, cujas bordaduras estão ladeadas por uma linha de escamas finas de cor dourada. As asas posteriores têm uma tonalidade castanha com reflexos dourados e uma pequena franja cinzento-azulada. O tórax está coberto de escamas cinzento-azulado. O abdómen tem uma coloração mais clara, sem escamas na parte dorsal.

Os ovos do bichado medem 1,3 mm de diâmetro. São circulares, planos, ligeiramente elevados no centro e com aspeto granuloso. São depositados nas folhas, ramos e frutos, geralmente de forma isolada e ocasionalmente em grupos de dois ou três. Os ovos acabados de pôr são esbranquiçados.

A larva denominada de (L1) mede 1,4 mm, tem a cor branca com a cabeça negra e possui uma grande mobilidade que lhe permite movimentar-se com grande rapidez. Nos últimos estados de desenvolvimento (L4-L5) toma uma cor rosa pálida, com granulações que cobrem o corpo todo. A cabeça e o escudo protorácico são de cor castanho claro com pontuações mais escuras. Completamente desenvolvidas medem cerca de 18 a 20 mm.

b) Bioecologia:

Passa o Inverno em forma de larva completamente desenvolvida (L5), nas fendas das árvores e no solo, protegida dentro de uma pupa esbranquiçada, oval, tecida com filamentos sedosos e aglomerações de resíduos de madeira. As larvas dentro deste refúgio hibernante permanecem em diapausa, até finais do Inverno.

Em meados de Março inicia-se a crisalidação que dura 20 a 30 dias consoante as condições climatéricas. A crisálida, por contração e ajudando-se das suas espinhas dorsais, perfura a parte superior da pupa e emerge ligeiramente, facilitando a saída do adulto. O desenvolvimento dos machos inicia-se antes do das fêmeas, embora mais tarde se equilibre a proporção entre ambos os sexos. A vida média das fêmeas é de 10 a 12 dias e dos machos de 8 a 15.

O voo do bichado é crepuscular, as condições ideais dão-se ao cair da tarde, com temperaturas superiores a 15ºC e humidade relativa superior a 60%.

O acasalamento ocorre poucas horas após a emergência das fêmeas e as posturas prolongam-se ao longo da sua a vida, durante cerca de 15 a 20 dias. A fecundidade média é de cinquenta ovos por fêmea. O período de incubação varia segundo as condições ambientais, normalmente, entre 5 a 15 dias. A paragem de desenvolvimento situa-se a 10ºC e o ótimo a 28ºC.

O desenvolvimento da lagarta abrange 20 a 30 dias após o que a lagarta do 5º instar abandona o fruto e procura um local para pupar. A duração do estado de pupa da 1ª geração varia entre 20 a 30 dias, após o que se verifica a emergência dos adultos da segunda geração. As lagartas do 5º instar da segunda geração hibernam no casulo, transformando-se em pupa na Primavera seguinte.

Ciclo de vida do bichado da macieira

c) Estragos e Prejuízos

A lagarta danifica ligeiramente a epiderme, mordiscando em primeiro lugar uma pequena zona circular exterior. A penetração é feita por debaixo da epiderme, em forma de espiral, aparecendo assim uma galeria. Esta espiral, geralmente bem definida e com um diâmetro de 3 a 6 mm, é bem visível por debaixo da pele levantada quando a penetração é recente. A seguir a larva dirige-se para o centro do fruto consumindo a polpa à medida que forma uma galeria até chegar às sementes, de que se alimenta e posteriormente pode voltar a alimentar-se de polpa, ao escavar o orifício de saída. Expulsa uma parte dos restos e excrementos para o exterior através da galeria de entrada que aumentam destruindo o rasto da espiral. No entanto, este rasto permanece visível mesmo quando a penetração da larva é interrompida por diversas causas.

No final do Verão, o ponto de penetração rodeia-se geralmente por uma auréola vermelho escuro. Quando a lagarta se introduz dentro do fruto próximo da maturação, o desenvolvimento larvar pode ser anormal e a larva passa, às vezes, de um fruto para outro sem formação de espiral.

Ovo de bichado
Ovo de bichado (ampliado)
Larva de bichado
Larva de bichado

d) Meios de Proteção

  • Estimativa de Risco e Nível Económico de Ataque

Os principais métodos de previsão são: o método das temperaturas crepusculares; determinação das curvas de voo (com recurso a armadilhas sexuais colocadas por alturas da primeira semana de Abril); observação visual das posturas e penetrações (deve ser feita em finais de Junho); cintas armadilhas (estimativa da população para o ano seguinte, colocadas em final de Julho); caixas de eclosão; soma das temperaturas de desenvolvimento.

Deve-se fazer o controlo do voo, pela contagem de machos capturados nas armadilhas. Como temos duas gerações de bichado por ano vamos ter dois períodos de risco, normalmente, que ocorrem por alturas de Maio-Junho e Agosto.

  • Luta Biológica

A ação dos auxiliares predadores e parasitóides permite reduzir o ataque de bichado, embora, normalmente, seja insuficiente para evitar a ocorrência de prejuízos. A sua ação pode ser complementada com outros meios de luta e, em último caso, através da seleção dos inseticidas menos tóxicos para os auxiliares.

Com o desenvolvimento de produtos da nova geração, novas possibilidades de combate surgem, nomeadamente na luta biológica através da utilização de Bacillus thuringiensis, o baculovírus da granulose e a Beauveria bassiana.

Ainda dentro da luta biológica podemos recorrer a Artrópodes auxiliares, como o himenóptero parasitóide de ovos, Trichogramma spp. e o díptero parasitóide de lagartas Tachinaire sp..

  • Luta Biotécnica

Na luta biotécnica utilizam-se a confusão sexual; Esterilização de machos e fêmeas; reguladores de crescimento de insetos e inibidores da síntese de quitina.

A confusão sexual é um meio de proteção que procura impedir o acasalamento dos adultos inviabilizando o aparecimento de ovos e de lagartas. Nesta técnica são colocados, no pomar, difusores com feromona (por exemplo- “tipo esparguete”, aproximadamente 1000 por hectare), de modo que a feromona libertada seja capaz de camuflar a presença das fêmeas. Para que o processo funcione é fundamental que a população do bichado hibernante na parcela não seja muito elevada, devendo os difusores ser instalados no terço superior da copa das árvores no início do voo dos adultos da geração hibernante. Outros aspetos a ter em conta são: a dimensão da parcela e sua envolvente, a localização e o isolamento da mancha de confusão sexual. Com este meio ultrapassamos os problemas de resistência, sendo menos perigoso para o aplicador e reduz os resíduos nos frutos.

  • Luta Química

Em resultado do insuficiente controlo biológico deste tortricídeo, é necessário manter a praga a níveis que não causem estragos e quase sempre é necessário recorrer à luta química.

Os produtos a aplicar dividem-se em dois grandes grupos: ovicidas e larvicidas. A aplicação de ovicidas, dada a sua especificidade e oportunidade de aplicação, está condicionada à monitorização do voo, podendo-se recorrer às contagens das capturas nas armadilhas e à observação visual das penetrações, de forma a determinar a fase do ciclo de desenvolvimento do bichado. Os produtos com ação ovicida são do grupo dos reguladores de crescimento e devem aplicar-se no início do voo dos adultos.

Os produtos larvicidas devem aplicar-se no pico de voo dos adultos. Às vezes pode ser necessário realizar dois tratamentos para cobrir todo o período de voo dos adultos.

Puffer difusor de feromona para confusão sexual

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