Aranhiço vermelho – Panonychus ulmi (KOCK)

a) Morfologia

A armadura bucal do P. ulmi é picadora-sugadora, estando situada na parte anterior do corpo, e resumidamente, é formada por uma boca rodeada por um par de quelíceras e um par de palpos. As quelíceras constituem os órgãos de aquisição dos alimentos, tendo o aspeto de um estilete longo. Ligada com a boca existe uma bomba faríngea que suga a seiva das plantas hospedeiras, para a boca do ácaro.

Os machos são de cor vermelha-esverdeada, têm cerca de 0,5 mm de comprimento, sendo mais estreitos e menos compridos do que as fêmeas. O seu corpo é piriforme e têm as protuberâncias dorsais menos evidentes do que as fêmeas. Estas são arredondadas e de aspeto robusto. Possuem o dorso fortemente abaulado, cerca de 0,7 mm de comprimento, são de cor vermelha-carmim ou castanha-esverdeada, tornando-se cada vez mais escuras à medida que envelhecem. Têm fortes pêlos, dorsais inseridos sobre protuberâncias redondas e esbranquiçadas.

Os ovos de Inverno são vermelho-escuros, estriados, em forma de cebola, possuindo uma arista no pólo superior. Medem cerca de 0,1 a 0,15 mm de diâmetro. Quanto aos ovos de verão têm a mesma forma e o mesmo diâmetro, mas não possuem arista no pólo superior. Logo a seguir à postura, os ovos são brancos, tornando-se posteriormente mais escuros perto da eclosão.

As larvas neonatas do aranhiço vermelho apresentam coloração inicialmente laranja-pálido, tornando-se verde pálido a medida que se alimentam. São hexápodas e mal eclodem dirigem-se por instinto para os ramos à procura de folhas tenras onde se alimentam durante um período de tempo variável consoante as condições climáticas e nutricionais. De seguida imobilizam-se num estado denominado protocrisálida e sofrem a primeira muda passando ao primeiro estado ninfal, a protoninfa. As protoninfas são octópodas, de coloração predominantemente verde-escura, podendo apresentar manchas pálidas na base das sedas. Apesar da similitude entre este estado e o anterior os indivíduos apresentam maiores dimensões, sendo já possível a distinção entre sexos. Após novo período de alimentação, as protoninfas sofrem nova imobilização (deutocrisálida), que conduz a nova muda, após o que o ácaro passa ao segundo estado ninfal, deutoninfa, de coloração verde-escura com manchas pálidas bem distintas na base das sedas. De seguida imobiliza-se pela última vez (teliocrisálida), dando origem ao adulto. Durante este último período de inactividade os ácaros fixam-se no substrato, sofrem uma muda e a nova cutícula é formada após a libertação de exúvia.

b) Bioecologia:

O ciclo biológico do aranhiço vermelho compreende cinco estados: ovo, larva, protoninfa, deutoninfa e adulto. A duração do ciclo está intimamente relacionada com a temperatura, de forma que a 13ºC é de 70 dias, enquanto que a 24ºC é só de 20 dias. Os machos adultos só duram metade do tempo das fêmeas e o seu desenvolvimento embrionário é ligeiramente inferior ao destas.

O período durante o qual a população se mantém ativa é de extrema importância no que se refere à aplicação duma estratégia de luta, qualquer que seja, uma vez que o estabelecimento de intervenções visando impedir ou reduzir a postura de ovos de Inverno, bem como as tendentes a impossibilitar a sua eclosão, são estabelecidas, de acordo com a duração desse mesmo período. Relativamente à macieira, a eclosão dos ovos de Inverno apresenta-se de certa forma sincronizada com a fenologia da planta hospedeira ocorrendo normalmente entre o aparecimento dos botões florais e o final da floração.

Ciclo de vida do aranhiço vermelho

O número de gerações anuais depende das condições do meio, sobretudo dos valores da temperatura e humidade e é muito variável de local para local.

Esse número é de 1-6 no Norte da Europa e 8-9 em Itália. Em Portugal, segundo um estudo realizado por MALTEZ (1994), o aranhiço completará cerca de nove gerações anuais.

A dispersão da praga faz-se, principalmente, pelo contacto entre plantas e também pelo arrastamento do vento, pelo transporte por aves e insetos e mesmo pelo homem nas suas práticas culturais, entre as quais de salientar as enxertias e o transporte de plantas de um lado para o outro. A capacidade de dispersão de Panonychus ulmi, é um fator significativo na sua importância como praga e o conhecimento dos mecanismos que a regem, parece ser essencial para a proteção contra a praga a longo prazo.


c) Estragos e Prejuízos:

Os sintomas do ataque do aranhiço vermelho são bem conhecidos. Assim as árvores atacadas, com realce para a macieira (em especial as denominadas variedades vermelhas), reconhecem-se ao longe em virtude da tonalidade castanha bronzeada que as folhas adquirem. O ácaro permanece, regra geral, na página inferior das folhas onde se alimenta, perfurando as paredes celulares dos tecidos vegetais com o estilete. Penetra deste modo, em várias células sugando o seu conteúdo com a armadilha bucal, picadora-sugadora. As células esvaziadas enchem-se de ar e acabam por morrer. Através dos orifícios de perfuração, dá-se a entrada de ar, ficando as folhas de início e no caso de fortes infestações com uma coloração prateada, a qual, com a morte das células, acaba por adquirir uma tonalidade castanha bronzeada, característica da presença da praga. Em casos severos estas folhas podem acabar por cair, sobretudo nos períodos secos. A planta, além de sofrer um esgotamento da seiva é também afetada na sua atividade fisiológica, repercutindo-se esta ação especialmente em desfoliações precoces, diminuição do tamanho dos frutos ou até mesmo queda dos mesmos e insuficiente armazenamento nutritivo dando origem além do enfraquecimento da árvore, a queda da produção do ano seguinte e anos posteriores (devido a uma diminuição do número de flores no ano ou nos anos seguintes).

d)Meios de Protecção:

  • Luta Cultural

Tem como objectivo reduzir ou eliminar as condições favoráveis a ataques de tetraniquídeos, relacionadas com excesso de adubações azotadas e a presença, nas bordaduras do pomar, de outros hospedeiros atacados pela praga.

  • Luta Biológica

No combate desta praga é fundamental a valorização e preservação da sua fauna auxiliar. Como medida de luta biológica temos a introdução de fitoseídeos em pomares atacados pelo aranhiço. Neste caso procede-se à colocação de cintas de flanela por alturas de Outubro-Novembro, no próprio pomar ou em pomares abandonados, para depois se colocarem estas cintas no pomar onde se queira introduzir os fitoseídeos.

Como principais predadores temos os ácaros predadores da família Fitoseídeos: Amblyseius, Phytseius, Phytoseiulus e Typhlodromus); Da família dos coccinelídeos: Stethorus punctillum; Da família dos Antocorídeos: o Anthocoris spp e o Orius spp; e da família dos Crisopídeos a Crysoperla carnea.

Fitoseídeo
Adulto de crisopa
Larva de crisopa
Adulto de Stethorus punctillum
Larva de Stethorus punctillum
Vídeo fitoseídeo

 

  • Luta Química

Devem-se controlar a partir do Inverno as populações de ovos existentes e em função disso efetuar ou não o tratamento de Inverno com um óleo adequado.

Os tratamentos contra as formas hibernantes de ácaros são fundamentais para o sucesso de um programa de proteção. Durante o repouso vegetativo, deve fazer-se a contagem dos ovos de Inverno, que nos vai dar uma ideia do risco potencial que o aranhiço vermelho representa para o pomar. Em pomares muito infestados podemos colocar tábuas com vaselina para determinação da eclosão dos ovos de Inverno. Após o início da eclosão, observa-se alguns novos rebentos da macieira, de forma a confirmar se predominam ninfas, larvas ou adultos. Em função desta observação determinar qual o produto a utilizar: ovicida, larvicida ou adulticida.

Durante o ciclo vegetativo da planta, a partir do momento em que constatamos a presença da praga, fazemos uma contagem das formas móveis existentes nas folhas pelo método já exposto em cima. Se eventualmente esta se encontrar em quantidades que vão oscilando e não ultrapassem o nível económico de ataque, consideramos a existência de um equilíbrio entre a praga e os seus predadores (Fitoseídeos, Sthethorus, Orius, Anthocoris, Chrysopas). As suas populações devem ter-se em atenção aquando da escolha da substância activa, uma vez que se devem utilizar produtos que sejam menos tóxicos para esses auxiliares. Por outro lado quando a população deste ácaro fitófago atinge o nível económico de ataque, recomenda-se a utilização de produtos (substâncias activas) aconselhados pela DGAV.

Tratar o menos possível o pomar e escolher cuidadosamente os pesticidas utilizados, optando pelos que não prejudiquem os auxiliares. Para isso é necessário vigiar os inimigos da cultura através de técnicas como a observação visual, a técnica das pancadas e as armadilhas sexuais e consultar a informação disponível sobre os efeitos dos produtos nos auxiliares.

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