Pedrado da macieira – Venturia inaequalis (Cke.) Wint.

a) Biologia e Epidemiologia:

Os fungos responsáveis pelo pedrado das Pomóideas apresentam uma evolução em duas fases: fase parasitária, nos órgãos vivos da planta, e fase saprófita nas folhas mortas.

Na fase parasitária o fungo desenvolve o micélio por baixo da cutícula dos órgãos que parasita. Este é constituído por filamentos em forma de cunha, ramificando-se e produzindo arborescências características, que posteriormente se condensam. No final do período de incubação o micélio deforma a cutícula e emite esporos piriformes de côr verde-oliváceo – os conídeos. Estes dão às manchas do pedrado, a sua côr e o seu aspecto aveludado característico. A perfuração da cutícula pelo fungo provoca uma evaporação anormal e elevada dos tecidos. O fenómeno é bem visível nas maçãs pedradas, que se encarquilham muito mais do que as sãs durante a conservação.

A fase saprófita desenvolve-se nas folhas mortas. O micélio invade o parênquima e depois forma os órgãos de reprodução sexual, vulgarmente designadas por peritecas. Estas últimas são corpos piriformes, de côr negro pardo, medem aproximadamente 0,1 mm de diâmetro e são visíveis medianamente, com uma lupa corrente sobre as duas fases do limbo.

No fim do Inverno, princípio da Primavera, as peritecas amadurecem diferenciando os ascos. Cada asco contém ascósporos bicelulares, de côr amarela-esverdeado.

Esta maturação não se dá simultaneamente, atingindo-se primeiro nas peritecas sobre a face das folhas mais expostas ao sol, coincidindo praticamente com o abrolhamento das macieiras. Por outro lado, a chuva é necessária para a libertação dos ascósporos, os quais são expulsos das peritecas a uma altura de 1 a 2 cm acima da folha, sendo arrastados e transportados pelo vento, às vezes a largas distâncias, até às folhas e inflorescências da macieira. Os ascósporos depositados pelo vento nos órgãos herbáceos da macieira só germinam na presença de água. O esporo emite então um tubo germinativo que se expande em contacto com a cutícula, atravessando-a mecanicamente e depois desenvolve um micélio subcuticular, dando origem às contaminações primárias. O período de incubação é variável consoante as condições climáticas. Estes períodos podem ir até 20-25 dias com temperaturas mais baixas, no entanto, quando a temperatura ronda os 17-20ºC, a atmosfera se encontra saturada e os órgãos são jovens, aquele período é menor. De seguida dá-se o aparecimento das manchas. Estas frutificam em seguida, dando origem a múltiplos conídios. Quando chove, estes últimos desprendem-se do seu suporte e são arrastados pela água sobre os órgãos verdes mais próximos, e são estes que determinam as infecções secundárias. O tempo que demora a aparecerem as manchas ronda os 10 a 20 dias. Estas novas infecções vão frutificar por sua vez e vão libertar-se entretanto novos conídios.

Enquanto existirem conídios e se verificar a projecção dos ascósporos dar-se-ão contaminações de duas origens, enquanto se mantiverem na natureza condições favoráveis, sobrepondo-se os ciclos de contaminação-incubação-eclosão.

Ciclo biológico do Pedrado Venturia inaequalis (Cke.) Wint.

b) Estragos e Prejuízos

Os frutos atacados pelo pedrado não apresentam características comerciais pela presença de manchas pretas, inicialmente verde escuras de grande dimensão quando resultantes de infecções primárias e de menor dimensão e em número mais elevado quando provenientes de infecções secundárias.

c) Estratégia de luta

  • Estimativa do Risco e Nível Económico de Ataque

A estimativa do risco, em relação à maturação dos ascósporos, assenta em modelos de previsão que simulam etapas consideradas fundamentais do ciclo da doença. Para tal, é necessário o acompanhamento dos dados climáticos registados em estações meteorológicas, tendo como base a acumulação de graus dia (somatórios acima de 0ºC). A contagem dos graus acumulados deve iniciar-se quando se observam os primeiros ascósporos maduros sendo que o período das infecções primárias termina quando se atingem os 900 ºC. A observação dos ascósporos maduros deve ser realizada em laboratório utilizando lupa binocular para identificar as pseudotecas imersas no tecido vegetal das folhas mortas, recolhidas semanalmente a partir de meados de Fevereiro (amostras de 10 a 20 folhas). A observação dos ascósporos maduros faz-se através da técnica do esmagamento de pseudotecas. A partir do vingamento contam-se 100 frutos ao acaso no pomar (2 por árvore), de forma a determinar a intensidade do ataque de pedrado nos frutos.

Os tratamentos devem ser feitos em função da intensidade de ataque determinada pela observação visual dos sintomas, dos factores de nocividade, da evolução do parasita e das condições climáticas.

d) Meios de Protecção

  • Luta Cultural

Na sequência de um ano de elevada intensidade de ataque, deve proceder-se à aplicação foliar de ureia na razão de (4 Kg/100 l água), ao início da queda das folhas contra a fase hibernante do fungo, visto que se diminui bastante o foco primário que estará activo para o ano seguinte. Ao modificar-se a relação carbono-azoto das folhas, inibe-se a formação das pseudotecas e acelera-se a degradação das folhas.

A orientação das linhas do pomar deve ser feita, se possível, no sentido dos ventos dominantes, permitindo uma diminuição dos períodos de humectação no interior da copa.

Para intensidades de ataque significativas, a monda manual de frutos deve ser uma prática a realizar sob pena de dificilmente se evitar a progressão da doença.

  • Luta Biológica

Não havendo ainda meios de luta biológica no controlo do pedrado ao longo do ciclo vegetativo, as intervenções são feitas à base de produtos químicos, com os óbvios custos sobre o ambiente. Os métodos de previsão da melhor oportunidade de tratamentos reduzem o número de tratamentos e aconselham produtos menos tóxicos.

Como luta biológica podemos referenciar a utilização de Athelia bombacina à fase hibernante do fungo.

  • Luta Química

A estratégia de luta contra o pedrado, terá um carácter preventivo, em que se pretende diminuir a aplicação de produtos sistémicos e penetrantes. O período de risco para o pedrado é considerado como sendo a altura em que a planta está sensível a este agente patogénico e ao mesmo tempo mantenha a capacidade de infectar as folhas e os frutos, bem como, as condições climatéricas sejam favoráveis seu desenvolvimento.

Peritecas de pedrado em folha
Peritecas (observação à lupa)
Ascos contendo os ascósporos (observação ao microscópio)
Pedrado em folhas e frutos
Estrago de pedrado em Fruto
Estragos de pedrado em fruto

O período de maior sensibilidade vai desde sensivelmente o estado C-C3 até cerca de 3 semanas após o vingamento.

Nos tratamentos químicos existem os fungicidas preventivos e os curativos. Os preventivos evitam a infecção, pois impedem os esporos de germinar. O tratamento tem de ser realizado antes de haver infecção. Os curativos impedem o desenvolvimento do fungo e a progressão das infecções.  São, normalmente, posicionados após os períodos de infecção.

Na Primavera o número de ascósporos de reserva nas folhas mortas é considerável. Pode ser feita a previsão das infecções massivas desde que se completem as condições necessárias para as contaminações definidas por modelos de previsão, como o de Mills e Laplace. Estas, conhecidas vulgarmente de “períodos críticos”, podem-se repetir várias vezes e são particularmente perigosas durante a floração e imediatamente depois desta.

Interessa portanto ter um especial cuidado nos tratamentos pré e pós-florais, para evitar infecções primárias, já que a intensidade das infecções secundárias depende da gravidade e extensão das primárias.

Depois dos meados de Junho os tratamentos fungicidas podem-se espaçar com um intervalo de 20-25 dias. Nas variedades para armazenamento é necessário continuar os tratamentos até ao final de Setembro para evitar os ataques de pedrado tardio que se manifestam nos frutos durante a sua conservação.

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